Texto integral do livro oficial

A CHAKANA JATUARANA

O Oráculo das 28 Letras e a Instrução de Vida

O Alfabeto Jatuarana não foi concebido apenas para ser pronunciado. Cada um de seus vinte e oito sinais nasce de uma imagem: pessoa, animal, planta, instrumento, caminho, água, recipiente, árvore, cerca, arco, flecha ou força da natureza, que chamamos de “A GRANDE VIDA”. Por isso, conserva uma dimensão contemplativa. Antes de formar palavra, a letra já oferece uma ideia, e antes de soar, ela pode ser vista, lembrada e interrogada.

Dessa natureza simbólica nasce a Leitura Chakana Jatuarana, também chamada Instrução de Vida. Trata-se de um método esotérico contemporâneo em que as vinte e oito letras funcionam como lâminas de reflexão. A Chakana oferece a arquitetura da disposição; o sentido de cada carta vem do próprio universo simbólico do Jatuarana. A proposta não pretende reconstruir uma prática divinatória inca perdida, mas criar, de maneira consciente, uma linguagem oracular inspirada na cruz escalonada andina.

A pergunta central não é simplesmente “o que vai acontecer?”, mas “o que esta experiência está tentando me ensinar?”. Por isso, toda leitura percorre três movimentos: memória, retificação e instrução. A memória procura a raiz de um padrão; a retificação mostra o que chegou ao presente incompleto, exagerado, ferido ou mal utilizado; a instrução indica como transformar essa força em aprendizado.

Quando a leitura é feita dentro de uma visão reencarnacionista, a memória pode ser entendida como vestígio de uma existência anterior. Para quem prefere outra linguagem, a mesma posição pode ser lida como ancestralidade, infância, memória profunda ou padrão adquirido. Em qualquer caso, a carta não sentencia, mas aponta uma força e pergunta o que faremos com ela.

A arquitetura da leitura

A Chakana utilizada neste método possui quatro braços, cada qual dividido em três posições, e um centro. A leitura completa emprega treze cartas: doze são distribuídas ao redor da cruz e a décima terceira permanece no centro, inicialmente oculta. Norte, Leste, Sul e Oeste não funcionam apenas como direções geográficas; tornam-se etapas de um percurso interior.

Método de Leitura da Chakana Jatuarana com as 13 posições do oráculo
Figura. A Chakana como matriz visual da leitura: quatro direções, doze posições periféricas e um centro de síntese.
*Posição**Direção**Casa**Sentido*
1NorteUkhu PachaMemória profunda
2NorteKay PachaVida presente
3NorteHanan PachaCompreensão superior
4LesteAmaruDesprendimento
5LestePumaForça presente
6LesteKunturPerspectiva
7SulAyniReciprocidade
8SulMinkaCooperação
9SulMitaResponsabilidade
10OesteMunaySentir
11OesteYachayConhecer
12OesteRuray/Llank’ayAgir
13CentroInstrução de VidaSíntese

Os quatro caminhos da Chakana

Norte: Os Três Mundos

O Norte pergunta de onde venho, onde estou e o que preciso compreender acima da situação imediata. Na primeira casa, Ukhu Pacha, a carta toca a memória profunda: raízes, ancestralidade, experiências esquecidas e padrões que parecem acompanhar a pessoa sem que ela saiba de onde vieram. Na leitura reencarnacionista, é a posição mais diretamente ligada à existência anterior; a letra, porém, não descreve literalmente uma profissão ou personagem passada, mas o princípio espiritual que atravessou aquela experiência.

A segunda casa, Kay Pacha, mostra como essa memória se manifesta no presente, por meio de comportamentos, relações, talentos, medos ou situações repetitivas. A terceira, Hanan Pacha, pede que o consulente saia do nível imediato do problema e procure sua compreensão superior. Ukhu mostra a raiz; Kay, o fruto atual; Hanan, o sentido que pode nascer quando ambos são compreendidos.

Leste: Os Três Animais Sagrados

O Leste é o lugar do nascimento da luz e, nesta leitura, marca o movimento da transformação. Amaru, a serpente, pergunta qual pele precisa ser deixada para trás: hábitos, vínculos, identidades ou medos que já cumpriram seu ciclo. Puma mostra a força disponível no presente, seja ela coragem, inteligência, disciplina, habilidade ou decisão, e pergunta com que recurso a retificação poderá ser realizada.

Kuntur, o condor, encerra o braço oriental elevando a perspectiva. Sua pergunta é simples e difícil: o que se torna visível quando deixo de olhar minha vida apenas a partir do problema? O condor não elimina o chão; ele oferece altura suficiente para perceber relações que, vistas de perto, pareciam separadas.

Sul: As Três Formas do Trabalho

No Sul, a leitura abandona a abstração e pergunta o que precisa ser feito. Ayni representa reciprocidade e examina os desequilíbrios entre receber e oferecer. Nem toda dívida precisa ser devolvida à mesma pessoa: há coisas que recebemos de uma geração e só podemos restituir entregando-as à seguinte. Minka pergunta com quem é necessário construir e revela tanto a força da cooperação quanto o risco de tentar carregar sozinho uma tarefa que pertence ao coletivo.

Mita, na arquitetura simbólica da Chakana Jatuarana, é a casa da responsabilidade. Ela mostra o dever que já não pode ser adiado. Não se trata de submissão cega, mas da percepção de que certos ciclos só se encerram quando assumimos conscientemente a parte que nos cabe.

Oeste: Os Três Valores Humanos

O Oeste é o lugar em que a luz desaparece no horizonte e o olhar precisa voltar-se para dentro. Munay pergunta o que o coração deve reconciliar e trabalha com afeto, desejo, compaixão e relação consigo e com os outros. Yachay pergunta o que ainda não foi compreendido: um erro de interpretação, uma verdade evitada, um aprendizado que falta ou um conhecimento que precisa ser buscado.

Ruray/Llank’ay encerra o percurso perguntando o que deve tornar-se ação. Sentir e compreender são indispensáveis, mas não bastam. Essa casa impede que a leitura termine apenas em contemplação e devolve o consulente ao mundo concreto.

O Centro: A Instrução de Vida

A décima terceira carta permanece inicialmente virada para baixo. Ela só é revelada depois que as doze casas forem lidas. O centro é o lugar em que passado e presente, mundo interior e exterior, pensamento e ação se encontram. Sua pergunta é: “Qual é a principal Instrução de Vida que devo levar desta leitura?”. A carta central não anula as outras; ela as reúne. Se as doze posições formam uma história, o centro é a frase que fica quando a história termina.

Como realizar a leitura

Utilizam-se as vinte e oito lâminas, uma para cada letra Jatuarana. Cada carta deve trazer o glifo, o nome da letra e seu valor numérico. Antes de começar, as cartas são misturadas enquanto o consulente mantém uma pergunta ampla o bastante para permitir reflexão. Uma fórmula possível é: “Que memória me trouxe até aqui, o que preciso retificar e qual é minha Instrução de Vida neste momento?”.

Retiram-se treze cartas. A primeira é colocada no centro e permanece fechada. As doze seguintes ocupam as casas da Chakana, começando pelo Norte e seguindo pelo Leste, Sul e Oeste. Abrem-se primeiro as três cartas do Norte; depois, as três do Leste; em seguida, as do Sul e as do Oeste. Somente depois dessa leitura completa o centro é revelado.

As cartas não precisam ser invertidas, como ocorre em algumas escolas de Tarô. Cada letra já contém potência e sombra, e virar o grafema de cabeça para baixo pode deformar sua identidade visual. O que determina o aspecto construtivo ou desequilibrado da carta é a casa em que ela aparece, a pergunta formulada e a relação com as cartas vizinhas.

As 28 lâminas Jatuarana

1. Abá (A): A Pessoa

Abá traz a imagem do indígena com arco e flecha em busca do alimento. É a pessoa integrada ao território, à subsistência e à continuidade da vida. Em uma leitura de memória, fala de sobrevivência, autonomia, busca e conhecimento do lugar em que se vive.

Sua sombra aparece quando sobreviver passa a significar enfrentar tudo sozinho, ou quando independência se confunde com isolamento. A retificação consiste em reaprender a medida entre necessidade e abundância. Instrução de Vida: “Conhece o território em que estás. Busca o necessário, mas não destruas aquilo que te alimenta.”

2. Bari (B/MB/V): A Ave da Adaptação

Bari é o japó amazônico e carrega consigo floresta, rios, ciclos e movimento. A própria flexibilidade fonética da letra ajuda a construir sua leitura: ela atravessa diferentes vozes sem perder a identidade. Como memória, pode apontar mudanças de ambiente, deslocamentos e aprendizado de diferentes maneiras de existir.

A sombra surge quando a adaptação é tão grande que a pessoa já não reconhece a própria voz. A retificação pede flexibilidade sem dissolução. Instrução de Vida: “Aprende novas vozes sem esquecer a tua.”

3. Güiña (G/GU): O Felino Oculto

Güiña é o pequeno felino das florestas austrais, ágil, discreto e profundamente adaptado ao ambiente. Em memória, fala de sobrevivência pela inteligência, pela observação e pelo silêncio.

Sua sombra é esconder-se quando já seria necessário aparecer, transformando prudência em medo. A retificação está em distinguir discrição de invisibilidade. Instrução de Vida: “Move-te sem ruído, mas não desapareças de tua própria vida.”

4. Dexá (D): A Água que Sustenta

Dexá mostra o indígena junto ao igarapé e às cabaças. Água, sustento, deslocamento, memória e capacidade de guardar formam seu campo simbólico. Na memória, pode indicar uma vida marcada pelo cuidado, pela travessia ou pela necessidade de preservar recursos.

A sombra aparece quando tentamos reter aquilo que precisa continuar correndo ou quando vivemos presos a lembranças antigas. A retificação é saber quando guardar e quando deixar fluir. Instrução de Vida: “Bebe da corrente, guarda o necessário e permite que o rio continue.”

5. Hoashi (H/RR): O Macaco e o Espelho Humano

Hoashi é o macaco-prego agarrado ao galho, imagem de curiosidade, destreza, improvisação e proximidade gestual com o ser humano. Na memória, fala de inteligência prática e da capacidade de sobreviver pela habilidade.

Sua sombra é a esperteza sem direção, a inquietação constante ou a imitação do outro. A retificação transforma rapidez mental em sabedoria consciente. Instrução de Vida: “Não uses apenas a habilidade para escapar. Usa-a para compreender.”

6. Wekh/Wej (W/U): A Toca

Wej é o abrigo, a toca, o lugar em que a vida se preserva e recupera forças. Na memória, pode revelar perseguição, exposição excessiva ou a necessidade antiga de esconder-se para sobreviver.

A sombra surge quando a proteção se transforma em prisão. A retificação permite repousar sem abandonar a vida. Instrução de Vida: “Recolher-se não é desaparecer. Descansa, recupera tua força e volta.”

7. Oroxita (O): A Beleza que Fere

Oroxita reúne a lagarta e o grafismo corporal inspirado nela. É beleza, identidade, defesa, perigo e poder. Como memória, pode apontar experiências em que atração, proteção e sofrimento estiveram misturados.

A sombra é julgar somente pela aparência ou usar o encanto como defesa permanente. A retificação reconhece que suavidade e força podem coexistir. Instrução de Vida: “Nem tudo que é belo é frágil; nem tudo que fere é desprovido de beleza. Aprende a enxergar além da superfície.”

8. Zéze (Z): O Pai e a Transmissão

Zéze é o pai que ensina pelo gesto e pelo exemplo. Sua memória fala de autoridade, ancestralidade, ensino e responsabilidade por outras pessoas.

A sombra aparece quando a autoridade não oferece exemplo ou quando o conhecimento morre porque não foi transmitido. A retificação transforma poder em orientação. Instrução de Vida: “Aquilo que sabes não é verdadeiramente teu até que saibas transmiti-lo.”

9. Japepo (J/DJ): O Recipiente

Japepo é panela, pote e cântaro: aquilo que recebe, conserva e transforma. Na memória, pode falar de uma existência dedicada a acolher, proteger, alimentar ou preparar algo para os outros.

A sombra é acumular sem esvaziar-se ou receber sem devolver. A retificação recorda que todo recipiente existe tanto para conter quanto para oferecer. Instrução de Vida: “Recebe, transforma e entrega.”

10. Chuspa (TCH): Aquilo que Carregamos

Chuspa é a bolsa andina que acompanha o corpo e guarda aquilo que possui valor. Na memória, aponta responsabilidades ligadas à preservação de conhecimento, tradição, família ou segredo.

A sombra é carregar para sempre aquilo que já deveria ter sido retirado da bolsa. A retificação consiste em distinguir tesouro de peso. Instrução de Vida: “Nem tudo que carregaste até aqui precisa acompanhar-te até o fim.”

20. Yosla (Y/I): O Pequeno que Move o Grande

Yosla é o pequeno mosquito e também a menor letra do sistema. Sua presença quase imperceptível produz efeitos maiores do que o próprio corpo. Na memória, fala de ter sido ignorado, diminuído ou obrigado a agir discretamente.

A sombra é acreditar que pequenez significa impotência, ou buscar reconhecimento apenas pela perturbação. A retificação é reconhecer a potência do mínimo. Instrução de Vida: “Não meças tua importância pelo espaço que ocupas.”

30. Cunhã (C): A Guardiã da Transformação

Cunhã é a mulher que transforma os frutos da terra em alimento e convivência. Trabalho, memória, tecnologia e continuidade cultural formam sua imagem. Na memória, pode apontar vidas de cuidado, alimentação, manutenção da família ou preservação de saberes.

A sombra é alimentar a todos e desaparecer de si mesmo. A retificação une serviço e dignidade pessoal. Instrução de Vida: “Transforma aquilo que a terra oferece, mas não desapareças dentro daquilo que ofereces aos outros.”

40. Karaimonhanga (K): A Raiz do Sagrado

Karaimonhanga mostra o pajé em ritual e o cocá prolongado como raiz. É cura, conhecimento ancestral, território e mediação entre o visível e o invisível. Na memória, pode tocar experiências de orientação, religião, cuidado ou mediação.

A sombra é uma espiritualidade sem chão ou uma autoridade sagrada convertida em vaidade. A retificação devolve a experiência espiritual à responsabilidade, à comunidade e à terra. Instrução de Vida: “Quanto mais alto procurares o espírito, mais profundamente deves fincar as raízes.”

50. Laphi (L): A Folha da Cura

Laphi é a folha de coca e reúne resistência, medicina tradicional, oferenda, reciprocidade e reverência à natureza. Na memória, pode indicar experiências de cura, cuidado ou sobrevivência em condições difíceis.

A sombra é procurar remédio para não enfrentar a causa da dor. A retificação ensina medida e consciência no uso daquilo que cura. Instrução de Vida: “A medicina ajuda o caminho; ela não pode caminhar em teu lugar.”

60. Lhama (LL/LH): A Sabedoria de Mudar a Rota

Lhama é o animal que atravessa caminhos difíceis e aprende a seguir por passagens possíveis. Na memória, fala de longas jornadas, responsabilidades e pesos carregados.

A sombra é insistir numa rota apenas porque muito já foi investido nela. A retificação permite mudar sem interpretar a mudança como derrota. Instrução de Vida: “Persistência não é continuar na direção errada.”

70. Maraká (M): A Vibração

Maraká é o chocalho ritual e reúne som, rito, chuva, água, alimento, fé, fartura e alegria comunitária. Na memória, pode indicar forte ligação com palavra, música, cerimônia, comunidade ou manifestação espiritual.

A sombra é produzir ruído sem intenção verdadeira. A retificação pede coerência entre o que se diz e o que se faz. Instrução de Vida: “Toda ação produz uma vibração. Pergunta-te que mundo teu movimento está chamando.”

80. Nuna (N): A Correnteza da Alma

Nuna é a correnteza e fala de alma, continuidade, memória ancestral e poder da palavra. A mesma água que faz germinar pode também devastar. Em memória, aponta experiências que parecem ultrapassar a biografia presente e vínculos profundos com ancestralidade e linguagem.

A sombra é deixar-se arrastar por emoções ou usar a palavra para ferir. A retificação consiste em escolher o que colocamos na corrente. Instrução de Vida: “A palavra também é água: depois de lançada, seguirá seu curso.”

90. Ñan (Ñ/NH/NG): O Caminho que se Desvia

Ñan é caminho, trilha e via. Seu símbolo ensina que contornar um obstáculo não é abandonar o destino. Na memória, pode indicar deslocamento, exílio, mudança ou percurso interrompido.

A sombra é a teimosia que insiste na direção errada ou, no extremo oposto, a mudança sem propósito. A retificação modifica o percurso sem abandonar o sentido. Instrução de Vida: “Não confundas direção com destino.”

100. Sukuriú (S/SS/Ç): A Força que Espera

Sukuriú é a grande serpente oculta antes do bote. Silêncio, observação, espera e potência concentrada são seus sinais. Na memória, pode apontar vidas em que estratégia e vigilância foram necessárias para sobreviver.

A sombra é viver permanentemente preparado para um ataque que talvez nunca venha. A retificação distingue paciência de paralisia. Instrução de Vida: “Não gastes a força antes da hora, mas não deixes a hora passar.”

200. Eirusu (E): A Abelha

Eirusu é a grande abelha e evoca força, organização, trabalho e fecundidade. Na memória, fala de construção coletiva, produtividade e serviço à comunidade.

A sombra é trabalhar sem cessar até esquecer a razão do próprio esforço. A retificação pede que a produção também alimente quem produz. Instrução de Vida: “O trabalho deve produzir mel, não somente cansaço.”

300. Petyngua (P): A Palavra que Sobe

Petyngua é o cachimbo tradicional e a fumaça que se eleva. Comunicação, reflexão, cura e orientação formam seu campo simbólico. Na memória, pode apontar oração, aconselhamento, fala ritual ou função de mediação.

A sombra é a palavra vazia, a promessa sem ação ou a busca do alto como fuga do mundo. A retificação purifica a intenção antes da fala. Instrução de Vida: “Antes que tua palavra suba, pergunta de que lugar dentro de ti nasceu.”

400. Foro (F): O Osso que Resiste

Foro é dente, molar e osso: estrutura que suporta pressão e, ao mesmo tempo, pode tornar-se lugar de dor. Na memória, fala de sofrimento prolongado e da capacidade de permanecer inteiro.

A sombra é endurecer porque um dia foi necessário ser forte. A retificação reconhece a dor sem abandonar a estrutura. Instrução de Vida: “Ser resistente não significa deixar de sentir.”

500. Tsion (TS/TZ): A Voz Antes da Chuva

Tsion é a cigarra, voz que anuncia mudança e renovação. Seu canto antecede simbolicamente a transformação do tempo. Na memória, pode indicar longos períodos de silêncio seguidos por momentos decisivos de manifestação.

A sombra é calar-se quando deveria anunciar ou falar incessantemente sem possuir mensagem. A retificação reconhece o momento certo de fazer a voz aparecer. Instrução de Vida: “Algumas vozes não produzem a chuva; elas reconhecem que a chuva já está chegando.”

600. Qenwa (Q): A Árvore das Alturas

Qenwa é a árvore que sobrevive ao frio, ao vento e à escassez das alturas. Raiz, resistência, proteção e adaptação orientam sua leitura. Na memória, pode falar de uma vida desenvolvida sob circunstâncias severas.

A sombra é transformar resistência em rigidez. A retificação ensina a adaptar-se sem abandonar as raízes. Instrução de Vida: “Curvar-se ao vento não é ajoelhar-se diante dele.”

700. Ksiwáwákaasi (KS/QS/X): A Teia

Ksiwáwákaasi é a aranha. A teia recorda que, quando um ponto é tocado, sua vibração alcança os demais. Na memória, a carta pode mostrar existências profundamente condicionadas por redes familiares, comunitárias ou coletivas.

A sombra é aprisionar-se na própria teia ou tentar controlar todos os fios. A retificação pergunta quais vínculos sustentam e quais prendem. Instrução de Vida: “Nenhum fio vibra sozinho. Repara tua parte da teia.”

800. Ró (R): A Cerca

Ró é a cerca, o limite que protege o território sem necessariamente impedir toda passagem. Pertencimento, discernimento e fronteira constituem seu campo simbólico. Na memória, pode revelar invasão de limites, perda de território ou necessidade intensa de defesa.

A sombra é não possuir fronteiras ou transformar todas elas em muralhas. A retificação aprende a dizer sim e não com consciência. Instrução de Vida: “Uma fronteira sábia possui também uma passagem.”

900. Shumara/Shimada (X/SH/CH): O Arco e a Flecha

Shumara/Shimada reúne arco e flecha: uma força acumula energia; a outra lhe dá direção. Concentração, propósito, precisão e decisão aparecem juntas. Na memória, pode indicar missão, combate, defesa ou busca por um objetivo.

A sombra é permanecer eternamente tensionado ou disparar sem mirar. A retificação alinha força e direção. Instrução de Vida: “Não basta possuir força. É preciso saber para onde enviá-la.”

1000. Tuup (T): O Portal

Tuup é o aro, reinterpretado como o portal pétreo do jogo de bola maia. Como última letra do alfabeto, fala de passagem, prova, limite, ciclo, continuidade e renovação. Na memória, pode apontar encerramentos incompletos, iniciações ou grandes provas.

A sombra é permanecer diante da passagem por medo de abandonar o que já terminou. A retificação é concluir e atravessar. Instrução de Vida: “Há portas que somente existem quando decidimos atravessá-las.”

Como interpretar uma combinação

Nenhuma letra deve ser lida fora da casa em que aparece. Tuup em Ukhu Pacha, por exemplo, pode sugerir uma memória de passagem ou encerramento incompleto; em Amaru, indica algo que precisa terminar agora; em Puma, mostra que a força disponível é justamente a capacidade de atravessar uma decisão; no centro, transforma-se numa instrução direta para cruzar um limite.

O mesmo ocorre com Wekh. Em Ukhu Pacha, pode revelar uma memória de ocultamento ou necessidade de proteção; em Kay Pacha, mostra que esse comportamento ainda se repete; em Minka, pode apontar dificuldade de abandonar o isolamento e construir com os outros; no centro, ensina que o recolhimento é necessário, mas que a toca não deve tornar-se morada permanente.

É dessa relação entre imagem, casa e contexto que nasce a leitura. A carta conserva seu núcleo simbólico, mas a posição modifica a pergunta que fazemos a ela.

A regra fundamental da Chakana Jatuarana

Toda carta pode ser atravessada por quatro perguntas: o que esta imagem recorda; o que acontece quando sua força se desequilibra; o que precisa ser retificado; e o que ela me ensina a fazer. Memória, sombra, retificação e instrução não são quatro cartas diferentes, mas quatro maneiras de entrar na mesma imagem.

Por isso, a leitura não divide as letras entre boas e más. A serpente pode ensinar espera ou revelar paralisia; a cerca pode proteger ou aprisionar; o recipiente pode alimentar ou acumular; a toca pode salvar ou esconder; o arco pode concentrar a força ou mantê-la eternamente tensionada. É justamente essa ambivalência que transforma a imagem em instrumento de contemplação.

A pergunta final

Depois que as treze cartas forem interpretadas, o leitor retorna ao centro e formula três perguntas: o que estou repetindo? O que preciso retificar? O que devo fazer diferente a partir de agora? Só então observa novamente a carta central.

Na Chakana Jatuarana, o passado não é apresentado para aprisionar alguém numa história anterior. Ele só importa na medida em que ajuda a compreender o presente. A memória explica; a retificação transforma; a instrução orienta.

Assim como o Alfabeto Jatuarana nasceu da transformação de imagens em letras, a Chakana realiza o movimento inverso: faz a letra retornar à imagem para que a imagem volte a ensinar.