Texto integral do livro oficial

PARTE I: DA CERÂMICA À PALAVRA

O nascimento do Alfabeto Jatuarana

A origem do Alfabeto Jatuarana remonta ao ano de 2019 e nasceu, curiosamente, do encontro entre uma imagem arqueológica e uma percepção inteiramente nova sobre aquilo que uma imagem poderia vir a ser. Naquele ano, durante minhas leituras sobre a arqueologia e a cultura material indígena do rio Madeira, deparei-me com a reprodução de um pequeno fragmento cerâmico proveniente do sítio arqueológico Aldeia do Jamil, localizado na margem direita do alto rio Madeira, nas proximidades da antiga cachoeira de Jirau, em Rondônia.

O fragmento havia sido estudado pelo arqueólogo Odair José Petri Vassoler em sua dissertação de mestrado Do Lago de Leite ao Rio dos Cedros: análise da iconografia cerâmica em vasilhas da Tradição Polícroma Amazônica no Alto Rio Madeira, defendida em 2016 na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), sob orientação da professora Lilian Moser. A pesquisa de Vassoler dedicou-se à identificação, descrição e comparação dos motivos iconográficos presentes nas cerâmicas da Tradição Polícroma Amazônica do Alto Madeira, abrangendo materiais provenientes de sítios arqueológicos situados entre as antigas cachoeiras de Santo Antônio e Jirau. Para essa leitura das imagens, o pesquisador articulou referenciais semióticos e antropológicos de Charles S. Peirce e Nancy Munn ao método de análise iconográfica de Erwin Panofsky.

Entre as peças examinadas encontrava-se justamente aquela que viria, anos depois, a exercer sobre mim uma influência inesperada: o Fragmento 06 do sítio Aldeia do Jamil, reproduzido por Vassoler como Figura 104, à página 116 de sua dissertação. Trata-se de um pequeno fragmento decorado com pigmento negro sobre provável engobo branco. As linhas espessas desenvolvem-se simetricamente sobre a superfície cerâmica, contornando espaços internos e organizando-se em torno de pequenos elementos verticais. Vassoler observou que esses diferentes motivos, considerados em conjunto, formavam uma figura maior que lembrava um rosto humano, razão pela qual o classificou como uma representação antropomorfa. A interpretação registrada pelo pesquisador é a de uma face antropomorfa. Entretanto, quando contemplei aquela imagem em 2019, vi outra coisa: a base de um alfabeto ameríndio.

Fragmento cerâmico 06 do sítio arqueológico Aldeia do Jamil
Fragmento cerâmico 06 do sítio arqueológico Aldeia do Jamil, reproduzido como Figura 104 na dissertação de Odair José Petri Vassoler.

Na figura 2, vemos a palavra Húd. Húd ocupa um lugar simbólico particular no Alfabeto Jatuarana. Os dois sinais que estiveram na origem visual do sistema correspondem, em sua equivalência latina, às consoantes H e D. Curiosamente, essa mesma sequência consonantal forma a estrutura da palavra hùd, registrada na língua Hupd’äh, falada por um povo indígena do Alto Rio Negro, no Amazonas. Assim, aquilo que inicialmente surgiu como uma convergência gráfica entre dois signos H + D encontra também uma correspondência lexical concreta em uma língua indígena amazônica.

Em Hupd’äh, hùd denomina determinado tipo de saúva comestível no universo alimentar tradicional da floresta. Essa coincidência amplia o sentido do símbolo fundador do Jatuarana. As letras que deram origem visual ao alfabeto formam uma palavra indígena real e evocam um elemento da alimentação e do conhecimento ecológico amazônico. HD / hùd torna-se, assim, um emblema do sistema, pois reúne memória gráfica, língua, território e cultura material da floresta.

Figuras 1 e 2. Na Figura 1 (esquerda), fragmento cerâmico nº 06 do sítio arqueológico Aldeia do Jamil, analisado por Odair José Petri Vassoler (2016) em sua pesquisa sobre a iconografia da Tradição Polícroma Amazônica no Alto Rio Madeira. Na Figura 2 (direita), a forma Húd, a releitura gráfica do motivo original, da qual derivaram os signos “H” (Hoashi, macaco-prego) e “D” (Dexá, água), elementos que estiveram na base conceitual e visual da criação do Alfabeto Ameríndio Jatuarana e formam a palavra Húd (saúva).

A seus autores antigos talvez ela evocasse um rosto, um ser, uma entidade ou alguma categoria visual cujo significado integral já não podemos recuperar. Aos meus olhos, porém, aquela figura imediatamente assumiu diversas aparências e significados amazônicos. As duas pequenas marcas negras pareciam olhos; as linhas curvas que as envolviam sugeriam as manchas e os contornos de uma face; a composição inteira adquiria, diante de mim, uma aparência quase Sagrada. E foi precisamente essa percepção que desencadeou todo o processo criativo posterior do alfabeto Jatuarana. Aquele pequeno caco de cerâmica deixou então de ser, para mim, apenas um vestígio arqueológico. Tornou-se uma pergunta.

Foi naquele instante que experimentei aquilo que somente consigo descrever como uma verdadeira eureka. Se uma composição de linhas produzida séculos atrás conseguia, ainda no presente, fazer emergir diante dos olhos a imagem de um alfabeto; se alguns poucos traços eram capazes de condensar símbolos da vida de povos originários, então aquelas formas possuíam uma potência que ultrapassava a simples ornamentação. Não porque constituíssem uma escrita no sentido linguístico, pois não existe evidência arqueológica que permita afirmar isso, mas porque demonstravam uma extraordinária capacidade indígena de converter o mundo em forma.

Essa percepção encontra eco na própria pesquisa de Vassoler. Ao estudar as cerâmicas do Alto Madeira, o arqueólogo demonstrou que sua iconografia não se reduz a uma coleção fortuita de linhas geométricas. Há recorrências, combinações e transformações de motivos: olhos, faces, figuras antropomorfas e zoomorfas, volutas, chevrons, círculos, losangos, “cartuchos”, labirintos e formas serpentiformes. Em trabalhos posteriores, Vassoler e Lilian Moser ampliaram essa discussão, aproximando os padrões arqueológicos de narrativas indígenas e amazônicas nas quais serpentes, peixes, humanos, animais, rios e seres encantados atravessam continuamente as fronteiras entre diferentes formas de existência.

Assim, uma linha poderia participar da formação de uma serpente; determinada combinação de linhas e círculos poderia produzir um olho; dois olhos transformavam uma superfície cerâmica em face; e aquilo que inicialmente parecia apenas geometria passava, quando observado dentro de uma composição mais ampla, a revelar corpo, personagem ou ser. A imagem não estava simplesmente colocada sobre a vasilha: em determinadas composições, a própria vasilha parecia adquirir um rosto. Foi precisamente essa capacidade de fazer uma forma nascer de outra que me fascinou.

A arqueologia do Alto Madeira revela, ao mesmo tempo, uma história cultural muito mais complexa do que qualquer associação simples entre uma cerâmica e uma etnia determinada permitiria supor. O conjunto inicialmente denominado Subtradição Jatuarana foi posteriormente integrado às discussões sobre a Tradição Polícroma da Amazônia (TPA). As cronologias originalmente propostas para Jatuarana chegaram a recuar demasiadamente sua antiguidade; pesquisas posteriores revisaram essas datas e situaram o aparecimento seguro desses conjuntos no Alto Madeira em torno de 1.300 anos antes do presente, aproximadamente a partir do século VII de nossa era. A história dessas ocupações envolve contatos, deslocamentos, incorporações técnicas e processos culturais que continuam sendo discutidos pela arqueologia amazônica.

Também seria imprudente identificar automaticamente a Tradição Polícroma Amazônica com um único povo ou tronco linguístico. Rondônia possui, contudo, uma importância excepcional para outro grande problema histórico: a origem e a dispersão das línguas do tronco Tupi. A extraordinária concentração de famílias linguísticas Tupi no sudoeste amazônico levou diferentes linguistas a situar nessa região a provável área de origem e diversificação desse tronco, e agora de onde se apresentará o alfabeto ameríndio. A relação específica entre os produtores da cerâmica polícroma e populações Tupi permanece, entretanto, uma hipótese arqueológica muito mais complexa e não uma equivalência automática entre cerâmica, língua e etnia. O próprio Vassoler faz essa ressalva ao discutir as propostas de Almeida, Pessoa, Rodrigues e outros pesquisadores.

Foi justamente diante dessa complexidade que minha pergunta deixou de ser puramente arqueológica e assumiu outra natureza: se os antigos povos das Américas haviam inscrito animais, corpos, seres, movimentos e concepções de mundo na matéria, por que não permitir que essas formas voltassem a falar?

Não no sentido de lhes atribuir artificialmente uma escrita perdida. Não se tratava de anunciar a descoberta de hieróglifos amazônicos, nem de alegar que os antigos portadores da cerâmica Jatuarana escrevessem palavras por intermédio desses desenhos. A arqueologia não autoriza tal conclusão, e o Alfabeto Jatuarana não depende dela. Minha proposta nasceu em outro território: o da criação cultural consciente fundada na memória arqueológica.

Tentando compreender nossa realidade sem obrigá-la a caber numa moldura exclusivamente europeia, comecei a imaginar uma escrita contemporânea que dialogasse visualmente com o universo indígena das Américas. Os grafismos da cerâmica, da pintura corporal, da cestaria e dos artefatos; os caminhos, os animais, as plantas, os utensílios e as narrativas poderiam oferecer matéria para sinais fonéticos novos. Cada sinal conservaria uma imagem de origem e, ao mesmo tempo, receberia um valor sonoro. O desenho deixaria de ser somente desenho e passaria a habitar também o domínio da linguagem.

A inspiração inaugural veio daquele pequeno fragmento encontrado às margens do Madeira. Para Vassoler, um rosto antropomorfo. Para mim, naquele instante de 2019, o rosto de um alfabeto. Entre essas duas leituras abriu-se um espaço criativo. E foi nesse espaço, situado entre a arqueologia e a criação, entre aquilo que os antigos efetivamente deixaram e aquilo que nós ainda podemos criar a partir de sua memória, que nasceu o Alfabeto Jatuarana. Não como reconstrução de uma escrita desaparecida, mas como uma escrita nova que deliberadamente reconhece de onde vieram suas primeiras formas. O fragmento não continha o alfabeto. Assim nasceu o Alfabeto Jatuarana.

O nome Jatuarana

A denominação Alfabeto Jatuarana não foi escolhida arbitrariamente, nem nasceu, em primeiro lugar, de uma elaboração etimológica. Sua origem é diretamente arqueológica. O nome foi adotado porque o fragmento cerâmico que, em 2019, desencadeou a concepção inicial do sistema pertence ao universo material classificado pela arqueologia como Subtradição Jatuarana, vinculada à Tradição Polícroma da Amazônia. Foi, portanto, uma homenagem consciente à tradição arqueológica do alto rio Madeira da qual procedia a imagem que deu origem aos primeiros sinais do alfabeto.

A própria denominação Jatuarana possui uma história profundamente amazônica. O vocábulo é registrado no Nheengatu, a Língua Geral Amazônica, como nome de um peixe caracídeo encontrado nos rios da região, denominação aplicada a peixes relacionados popularmente às jatuaranas e aos matrinxãs. Assim, antes de designar uma categoria arqueológica e, posteriormente, o sistema de escrita aqui apresentado, Jatuarana já pertencia ao léxico das águas amazônicas.

Do ponto de vista morfológico, há ainda um elemento particularmente significativo: -rana, de origem Tupi, amplamente preservado tanto no Nheengatu quanto no português amazônico. Trata-se de um elemento formador empregado para indicar aquilo que é semelhante a outra coisa, parecido com ela, mas não exatamente idêntico. Dependendo do contexto, pode assumir valores traduzíveis por “parecido com”, “da espécie de”, “aparente”, “falso” ou “não verdadeiro”. É o mesmo princípio encontrado em numerosas denominações amazônicas nas quais uma planta, um animal ou um objeto recebe o nome de outro por guardar com ele alguma semelhança.

É necessário, entretanto, estabelecer uma cautela filológica. Embora o elemento -rana seja linguisticamente transparente, a interpretação exata da primeira parte da palavra -jatu- não se encontra suficientemente estabelecida para que se proponha, sem ressalvas, uma tradução literal completa de Jatuarana. A lexicografia registra com segurança o vocábulo inteiro como nome indígena de peixe, mas isso não autoriza decomposições imaginativas apresentadas como etimologias certas. Por essa razão, é mais rigoroso compreender Jatuarana como uma antiga denominação amazônica, de procedência indígena, cujo segundo elemento conserva claramente a noção de semelhança.

Curiosamente, essa particularidade linguística acabou conferindo ao nome escolhido em razão da arqueologia um significado que parece descrever, quase involuntariamente, a própria filosofia do alfabeto. O princípio de -rana-, aquilo que se assemelha sem ser idêntico, está presente em praticamente toda a construção visual do sistema. Os sinais Jatuarana parecem ser alguma coisa e, ao mesmo tempo, tornam-se outra.

Uma letra pode lembrar uma serpente sem ser simplesmente o desenho de uma serpente. Outra pode conservar a silhueta de um arco, de uma abelha, de um pássaro, de uma árvore, de um rosto ou de um ser humano, mas já não existe apenas como representação desse objeto. Ao ser incorporada ao sistema, a imagem sofre uma transformação conceitual: recebe posição, valor fonético, regras de combinação e função linguística. É justamente nesse limiar que nasce a escrita. A imagem permanece reconhecível, mas atravessa uma metamorfose.

O nascimento do alfabeto reproduz o que seu nome, por uma coincidência linguística, passou a sugerir. O fragmento cerâmico que lhe deu origem não era uma letra, embora seus traços se parecessem com uma. O desenho arqueológico também não constituía uma escrita. Ele ofereceu a matéria visual a partir da qual uma escrita contemporânea foi criada.

O Alfabeto Jatuarana é, portanto, uma escrita-rana: uma escrita que nasce da semelhança sem reivindicar identidade; que contempla formas ancestrais, dialoga com elas e as transforma sem pretender fazer-se passar por uma escrita arqueológica perdida. Essa distinção é fundamental. O sistema não afirma reconstruir a língua dos produtores da cerâmica Jatuarana, tampouco sustenta que os grafismos arqueológicos fossem letras, mas eram uma espécie de leitura visual, que o alfabeto Jatuarana também permite. Ele é uma criação contemporânea que reconhece conscientemente sua dívida estética para com a cultura material indígena das Américas e, sobretudo, para com aquele pequeno fragmento cerâmico do alto Madeira que desencadeou sua concepção.

Há nisso ainda uma última dimensão simbólica. Jatuarana é também o nome de um peixe. E poucas imagens poderiam ser mais adequadas para uma escrita nascida às margens do Madeira. O peixe pertence ao rio, desloca-se por suas águas e atravessa espaços sem deixar caminhos permanentes sobre a superfície. De modo semelhante, as culturas amazônicas circularam pelos rios, transformaram paisagens, transmitiram imagens, palavras e conhecimentos e deixaram suas marcas na matéria.

As vinte e oito letras e a anatomia simbólica da Palavra

O Alfabeto Jatuarana é constituído por 28 letras. Esse número não foi adotado apenas por conveniência gráfica. Dentro da filosofia esotérica do sistema, o vinte e oito constitui uma verdadeira arquitetura simbólica. As duas mãos humanas possuem, consideradas as articulações digitais, vinte e oito juntas. Quando as mãos são aproximadas e os dedos se entrelaçam, sua estrutura pode recordar, simbolicamente, os dois hemisférios e as circunvoluções do cérebro humano. Não se propõe aqui uma equivalência anatômica, mas uma correspondência iniciática, pois mão e mente encontram-se na mesma imagem. A mente concebe; a mão executa. Entre ambas encontra-se a Palavra.

Há ainda outra correspondência: a dentição adulta apresenta normalmente 28 dentes quando se consideram os dentes permanentes sem os terceiros molares, chamados dentes do siso. Assim, boca, mãos e mente convergem novamente sobre o mesmo número. Essa é a linguagem própria do símbolo. Dentro da concepção espiritual do Alfabeto Jatuarana, as vinte e oito letras recordam, portanto, uma tríade fundamental: Mente, Palavra e Ação.

A Grande Vida, princípio que sustenta e vivifica todas as coisas, cria primeiro no invisível da Mente. Aquilo que está na mente manifesta-se pela Palavra, e a Palavra torna-se ação, vibração e forma. O pensamento que não se manifesta permanece oculto. Quando recebe som, atravessa a boca; quando recebe gesto, atravessa as mãos; quando recebe sinal, transforma-se em escrita. Escrever, portanto, é dar corpo ao invisível. O cérebro concebe, a boca pronuncia e a mão registra. Nesse percurso, aquilo que ainda não possuía forma passa a habitar o mundo material. As 28 letras do Alfabeto Jatuarana devem ser compreendidas como unidades gráficas e como partes de uma anatomia simbólica da Palavra.

Um alfabeto de memória ameríndia

Cada letra Jatuarana possui duas dimensões inseparáveis: uma fonética e outra simbólica. Foneticamente, o sinal participa do registro da língua; simbolicamente, conserva uma imagem e uma narrativa. Por analogia, e não por identidade histórica, o sistema pode ser colocado em diálogo com outras experiências da escrita humana: os caracteres chineses e sua tradição japonesa preservam relações gráficas e semânticas complexas; a escrita maia combinou valores logográficos e silábicos; e as letras semíticas receberam, ao longo dos séculos, numerosas leituras simbólicas e esotéricas. O Jatuarana assume conscientemente essa dupla possibilidade. Antes de ser apenas pronunciada, a letra também pode ser contemplada.

Uma forma pode representar o ser humano, outra a abelha, outra o arco, outra a árvore, outra o caminho, outra o animal que rasteja ou o inseto observado do alto. A natureza não aparece como decoração acrescentada posteriormente ao alfabeto, mas ela constitui a própria matéria intelectual de sua construção.

Por essa razão, o Jatuarana pretende reunir uma síntese visual da sabedoria dos povos originários das Américas. Isso não significa afirmar que cada glifo derive arqueologicamente de todas as etnias indígenas ou que exista uma única tradição gráfica comum a todo o continente. A diversidade indígena impede justamente semelhante simplificação. O sentido é outro, onde cada povo guarda uma maneira própria de transformar mundo em símbolo, e o Alfabeto Jatuarana coloca essas diferentes possibilidades em diálogo dentro de uma criação contemporânea. Da floresta às montanhas, dos rios amazônicos aos Andes, do corpo pintado à cerâmica, da cestaria à madeira, das penas às pedras, existe uma extraordinária inteligência da forma. O Alfabeto Jatuarana deseja escutá-la.

Às margens do Mamoré: O nascimento da língua jatuarana

Foi em Guajará-Mirim, às margens do Mamoré, que a ideia de criar uma língua pan-ameríndia deixou de ser apenas uma possibilidade intelectual e começou, para mim, a adquirir forma, propósito e missão. Eu havia saído para uma atividade absolutamente cotidiana: comprar o mantimento do mês no mercado. Em meio ao movimento das pessoas, encontrei uma família indígena Oro Mon. Um dos homens tentou conversar comigo em português, mas era evidente o esforço que fazia para organizar seu pensamento numa língua que não era a sua. Em vários momentos, as palavras portuguesas se misturavam naturalmente às de sua própria língua. Eu conseguia acompanhar fragmentos daquela fala porque já estudava os povos indígenas de Rondônia e, particularmente, o complexo Wari’ e seus diferentes subgrupos. É importante fazer aqui uma distinção: não existe propriamente um “tronco Oro”. Os Oro Mon constituem um dos subgrupos Wari’, cuja língua pertence à família Chapakura; na nomenclatura tradicional desses grupos, oro funciona como elemento coletivo presente em denominações como Oro Mon, Oro Nao’, Oro At, Oro Eo’, Oro Waram e outras. O Oro Mon é documentado justamente na região de Nova Mamoré e Guajará-Mirim, e existe inclusive um dicionário Oro Mon–Português produzido na Universidade Federal de Rondônia a partir de pesquisa etnolinguística realizada na própria região.

No decorrer daquela conversa, aquele homem me disse algo que permaneceu comigo. Não recordo hoje seu nome, e por isso seria desonesto inventá-lo, mas recordo perfeitamente o sentido de suas palavras. Falávamos sobre a dificuldade de indígenas de povos diferentes se comunicarem entre si e também sobre a necessidade constante de recorrer ao português, língua que se tornou dominante no território brasileiro por uma longa história colonial, missionária, administrativa e escolar. Foi então que ele me disse, aproximadamente: “Deveria existir uma língua de todos os indígenas, uma língua que todos aprendessem nas escolas, para podermos falar uns com os outros, facilitar nossa vida e também nos representar.” Aquela frase me atingiu imediatamente. Respondi: “Você acaba de me dar uma ideia. E se criássemos uma língua simples, sem acentos, sem conjugações difíceis, sem exceções desnecessárias, tão regular que uma criança pudesse aprendê-la rapidamente e um ancião pudesse começar a pronunciá-la sem precisar passar anos estudando?” Ele se entusiasmou e perguntou quem eu era, talvez imaginando que eu fosse estudante de linguística ou pesquisador naquela área. Minha resposta foi outra: “Sou filho da Mãe Terra. E vou revelar a língua da qual você acabou de falar: uma língua simples, feita para aproximar os filhos desta terra.” Ele sorriu e respondeu em Oro Mon. Já não posso reproduzir com segurança a frase original, e não quero transformar uma lembrança em falsa documentação linguística. O sentido que ficou para mim, porém, foi inequívoco: “Meu irmão, faça isso!” O dicionário Oro Mon registra formas específicas para “irmão”, para “fazer algo” e para demonstrativos como “isso”, mas reconstruir hoje aquela sentença inteira sem o contexto gramatical da fala seria artificial. Foi naquele instante, entretanto, que uma ideia se converteu em compromisso.

A Língua Jatuarana nasceu, portanto, de uma necessidade muito concreta: como possibilitar comunicação sem exigir que um povo abandone sua própria língua para compreender outro? O projeto não pretende criar uma “língua indígena verdadeira” que substitua o Wari’, o Tupi, o Guarani, o Quéchua, o Tikuna ou qualquer outro idioma originário. Muito menos pretende apagar diferenças culturais sob uma língua única. Seu princípio é exatamente o contrário: oferecer uma língua auxiliar pan-ameríndia, uma ponte que possa ser aprendida por pessoas de origens diferentes enquanto cada povo continua guardando sua língua ancestral. Por isso sua estrutura foi concebida para ser deliberadamente regular: verbos não precisam mudar de forma para cada pessoa; os substantivos não possuem gênero gramatical; o plural segue uma regra previsível; relações como posse, localização, direção, companhia e ausência são expressas de maneira sistemática; e as palavras não recebem acentos gráficos. O próprio projeto define o Jatuarana como uma língua auxiliar planejada, de aprendizagem simples e estrutura transparente, cujo objetivo é criar comunicação sem transformar diversidade em uniformidade.

Essa universalidade ameríndia também se encontra no vocabulário. O Jatuarana não pertence lexicalmente a um único tronco ou a uma única região. Seu repertório foi pensado como um encontro entre diferentes memórias linguísticas das Américas. Há raízes provenientes ou inspiradas no Tupi antigo e no Guarani, representando parte do imenso universo Tupi; no Quéchua e no Aimará, trazendo a memória dos Andes; no Mapudungun, língua mapuche do extremo sul; no Tikuna, da Amazônia ocidental; no Yine, de família Arawak; no Wichí, do Chaco; no Shipibo-Konibo, do universo Pano; no Macuxi, do norte amazônico; e no Ye’kwana, entre outros repertórios ameríndios posteriormente incorporados. Cada palavra incorporada deixa de funcionar como simples citação estrangeira e passa a obedecer às regras comuns da nova língua. Quando não existe uma raiz adequada, o Jatuarana prefere construir uma forma transparente dentro de seu próprio sistema em vez de inventar uma falsa palavra ancestral e atribuí-la artificialmente a algum povo. Essa escolha é essencial: a língua reúne as Américas sem falsificar as Américas.

Há também uma dimensão espiritual nessa origem. Em Jatuarana, “Mãe Terra” (Pachamama), é a imagem pan-ameríndia da grande terra americana. Quando os europeus chegaram às Américas, traziam consigo outra biblioteca simbólica: a Bíblia, o Éden, Adão, Eva e a busca pelo Paraíso terrestre. A historiografia demonstrou amplamente a presença de motivos edênicos nas descrições e imaginações europeias acerca do Novo Mundo, especialmente entre os séculos XV e XVIII; Sérgio Buarque de Holanda dedicou precisamente a esse fenômeno sua clássica Visão do Paraíso. Não seria historicamente rigoroso dizer que todos os padres e cronistas acreditaram literalmente ter encontrado “os primeiros filhos de Adão”; é mais correto afirmar que muitos olharam para as novas terras e seus habitantes através das categorias religiosas que já conheciam, aproximando a exuberância americana, a vida em contato com a natureza e determinadas concepções indígenas de imagens que lhes recordavam o Paraíso terrestre. Essa releitura é importante porque permite inverter a antiga lente colonial: em vez de perguntar como os povos da América poderiam ser encaixados na história de Adão, podemos perguntar o que a própria imagem de Adão ensina quando lida a partir da Mãe Terra.

Adam, no hebraico bíblico, não é apenas o nome próprio de um indivíduo; adam também significa homem, ser humano, humanidade. O relato de Gênesis apresenta essa humanidade como imagem e semelhança de Deus e a coloca no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. Na linguagem espiritual adotada pelo Jatuarana, essa imagem encontra uma correspondência poética com Hatun Kawsay, a Grande Vida: não como tradução histórica da teologia de qualquer povo indígena, mas como símbolo de um princípio maior do qual a humanidade participa. O verdadeiro filho da Grande Vida não é aquele que domina a floresta, mas aquele que aprende a coexistir com ela; não é aquele que declara possuir os rios, mas aquele que sabe que depende deles; não é aquele que se coloca acima dos animais, da água e da terra, mas aquele que reconhece que sua própria existência está entrelaçada a todas essas existências. Assim, a identidade filosófica do Jatuarana nasceu junto com sua gramática: uma língua comum deveria ensinar não apenas como povos diferentes podem falar uns com os outros, mas também como podem lembrar que continuam pertencendo à mesma Grande Terra.

Há, finalmente, uma coincidência geográfica que tornou Guajará-Mirim ainda mais significativa para mim. A linguística histórica e a arqueologia há décadas discutem a hipótese de que a região compreendida entre os sistemas Guaporé–Madeira–Aripuanã, em grande parte situada no atual estado de Rondônia e áreas vizinhas, tenha desempenhado papel central na diversificação inicial do tronco Tupi. A formulação clássica não afirma que a cidade de Guajará-Mirim, isoladamente, tenha sido “o berço do Tupi”; a hipótese refere-se a uma região muito mais ampla. Estudos destacam justamente a extraordinária concentração, em Rondônia e no alto Madeira, de diferentes famílias pertencentes ao tronco Tupi, um dos argumentos históricos para localizar nessa grande área uma provável pátria linguística antiga. Essa precisão torna a imagem, para mim, ainda mais poderosa. Não preciso transformar uma hipótese científica em lenda para reconhecer sua beleza: numa região associada por pesquisadores a uma das mais extraordinárias dispersões linguísticas indígenas da América do Sul, nasceu também a proposta de uma nova língua destinada a aproximar novamente povos separados por milhares de quilômetros.

Foi assim que o Mamoré deixou de ser apenas cenário e passou a marcar uma origem. Um encontro cotidiano num mercado, uma conversa imperfeita entre duas línguas e uma frase pronunciada por um homem Oro Mon deram finalidade humana ao que eu vinha imaginando. O Jatuarana não nasceu para substituir as centenas de línguas das Américas. Nasceu porque elas existem e porque seus falantes podem desejar uma segunda língua comum. Um Wari’ pode continuar sendo Wari’, um Guarani continuar sendo Guarani, um Quéchua continuar sendo Quéchua e um Mapuche continuar sendo Mapuche. Se a região do Madeira e do Guaporé guarda, segundo uma importante hipótese linguística, algumas das raízes mais antigas da expansão Tupi, escolho Guajará-Mirim e as margens do Mamoré como o lugar simbólico de outra raiz: o berço da Língua Jatuarana, a língua pan-ameríndia da Grande Terra.